31 de julho de 2010

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Por que o IFE?

Os gênios individuais e as grandes idéias desempenham um papel muito importante na formação da cultura de um povo, mas não são suficientes. Até encontrarem difusão e terem impacto a longo prazo, necessitam de um «substrato» cultural receptivo.

Na Inglaterra, esse substrato foi criado por uma educação média de excelente qualidade, graças às grandes escolas secundárias independentes, como Eton; nos outros países da Europa, pela educação pública média e superior; nos Estados Unidos, pelas Universidades privadas, principalmente as da Ivy League. Ao mesmo tempo, foram necessárias diversas instituições que fornecessem infra-estrutura adequada: bibliotecas, institutos de pesquisa e pós-graduação, mais modernamente os think tanks. Mas houve, sobretudo, um elemento «intangível», que consistiu e consiste numa tradição de trabalho intelectual sério.

O Brasil sofre de uma extrema carência desse pensamento humanista, baseado no amplo leque de opiniões oferecido pela história do pensamento e voltado para um horizonte também amplo de problemas. Isso prejudica não só o estudo de nossa própria cultura, mas também toda nossa vida privada e pública. Afinal de contas, as disciplinas práticas, como a ética, a política e economia, estão baseadas inteiramente na visão que se tem do ser humano.

A área de humanidades, na Universidade brasileira, esteve e em ampla medida continua a estar dominada maciçamente por uma ideologia que a pôs a serviço de ódios e ressentimentos políticos e ao mesmo tempo a deixou vazia e superficial. Em conseqüência, os melhores talentos deslocaram-se para a ciência e a tecnologia, o que vem tornando a Universidade, crescentemente, uma escola técnica a serviço das necessidades imediatas do mercado de trabalho.

O resultado é que hoje não há, no panorama brasileiro, nenhuma instituição que assuma a tarefa de educar nos valores básicos do ser humano e na grande cultura clássica ocidental, que no entanto é e sempre foi a espinha dorsal das humanidades. Ao mesmo tempo, sente-se que há uma grande demanda entre estudantes e profissionais por valores apoiados na experiência humana e por um conhecimento humanístico sólido.

É necessário ter presente que não se trata de alimentar saudosismos do passado, de um passado que aliás nunca chegamos a ter, pois seria absolutamente estéril. As contribuições positivas da modernidade, sobretudo da ciência, são enormes, e é evidente que não se trata de enfatizar nenhum pensamento reducionista. Nesse sentido, é hora de superar clichês, como tradicionalismo x progressismo, conservadorismo x inovação, esquerda x direita. É necessário hoje um ponto de vista mais amplo, que leve em conta toda a tradição, mas não para prender-se a ela, e sim para encarar os desafios que o futuro nos apresenta.